Brasilidade

Sei Que Não Sou O Presidente

By Márcio Bello Teixeira

Quando eu me dei conta de que sou o que o presidente não é, e nunca será, percebi quão difícil é descrever o cidadão brasileiro que restou de mim. Mas o pensamento epífano – que me fez compreender minha brasilidade – surgiu quando vi algumas das contas que mensalmente tenho que pagar pra continuar sendo o que ainda sou. Então, senti uma aceleração cardíaca que,talvez, ele também sinta – penso eu – quando vê seu extrato bancário. Rapidamente, fechei meus olhos e lembrei que o coração não vê o dono do peito em que bate – afinal, quem não cara, pode ser coração! Respirando fundo e abrindo as janelas do meu preconceito, busquei um copo d’água pra, sem açúcar, acalmar-me. De novo, indaguei-me, agora, sobre os coliformes fecais que já há muito contaminam (não seria corrompem?) nossa água mineral que, literalmente, mata nossa sede – será que a dele também morre ou é saciada? Bem, oportunamente, resolvi abrir uma lata de sardinha em molho vermelho – sem conotação comunista ou socialista – pra diminuir minha corriqueira fome ansiosa – cara, será que a lata de sardinha dele tem salmão? Enquanto lavava minhas mãos pra tirar o cheiro denunciador do meu hábito alimentar, não consegui evitar a imagem mental de Pôncio Pilatos e aí me perguntei: o presidente lava as mãos como eu? Isso não é tão elementar… Sei, todavia, que depois de enxugar as minhas, ninguém é crucificado, nem sacrificado… De repente, pensei naquele que dizem ter feito a multiplicação dos peixes e a transformação da água em vinho. Foi quando lembrei-me de um tal amigo seu chamado Judas – em quem será que o meu presidente se espelhou? Apesar d’eu não ter uma resposta do nosso jeitinho, sei que ainda sou brasileiro… Mas, sei, com certeza, que não sou o presidente… Mas,… e s’eu fosse?

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